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Onde há fé e onde não há? - pensando em missões...

By : Kadu

Sempre que penso em missões me vem a mente aquilo que eu creio que todos nós, cristãos brasileiros, temos sido formatados a pensar. 
Qual a primeira coisa que você pensa (imagem mental ou palavra) quando ouve algo sobre missões, ou quando ouve a palavra missionário? Posso fazer essa pergunta de leste a oeste, de norte a sul aqui no Brasil e a resposta invariavelmente será a mesma, salvo raras e boas exceções. Faça esse exercício aí, você que está lendo..., o que pensou?
Se você pensou em alguma das palavras a seguir, você é um cristão normal dentro do contexto brasileiro: África, China, muçulmanos, pobres, criancinhas famintas, local isolado e distante, fome, perseguição, índios, entrega de folhetos, teatro, impacto, favela, cadeia...
Tenho algo pra te dizer sobre isso: se você pensou alguma dessas coisas, você está certo, mas pode estar completamente errado também! Incrível? Não..., normal!
Mas porquê? Porque estamos constantemente com uma imagem trazida de uma experiência apenas, e encerramos todo o tema "missões" nisso. 
Pensamos assim: "Na minha igreja fazemos impactos de rua, entregamos folheto, pregamos na praça e damos comidas aos pobres..., isso é missões!". A resposta é sim, isso é, mas não, pois se dissermos que isso que é missão, e o resto? Se dissermos que ser missionário é ir pra China, e os outros países? Se dissermos que missões é pregar para os pobres, isso quer dizer que quem tem dinheiro não precisa ouvir as boas novas?
Uma coisa que aprendi estudando sobre missões é que ao encerrarmos a nossa definição de missões invariavelmente iremos deixar algo de fora, como bem diria David Bosch.
Mas isso não quer dizer que não devemos buscar definições sobre missões. E uma das melhores que já ouvi até hoje, que praticamente não se encerra em uma definição excludente, é de que "missões" é a proclamação exaustiva do evangelho nas fronteiras onde não há fé (conf. René Padilha).
Essa definição é importante pois não exclui ações específicas (palestra, folheto, impacto, teatro, conversa, esportes, mídia, etc.) nem localidades específicas, já que a fronteira não é mais geográfica nem social, mas simplesmente onde há fé e onde não há fé (isto é, crença e relacionamento correto com o único Deus e tudo o que diz respeito a ele). Isso pode se dar seja aqui, no meu vizinho, ou lá longe, no Sudão do Sul, no Curdistão. Isso pode ser através de teatros (onde seja realmente relevante!) ou através de estratégias mais sutis como o caso dos relacionamentos informais. Também pode ser entre os mais pobres somalis ou entre os ricos europeus e asiáticos.
Digo isso porque tenho passado por diversas comunidades, igrejas e pessoas diferentes, com doutrinas e costumes distintos, mas, quase que sempre, a definição sobre missões é sempre a mesma, e gira em torno da exclusividade dos termos que citei lá em cima. O que não for aquilo, não é missões!
Porque fazemos isso? Porque nos julgamos donos da verdade, donos da missão. Não compreendemos
ainda que Deus é o dono de missões e que, em primeiro lugar, ELE tem uma missão. Nós estamos debaixo da missão dEle, como coadjuvantes, que auxiliam no cumprimento da Sua missão no mundo! Isso quer dizer que, ainda que não façamos nossa parte, Ele continua sendo missionário e cumprindo Sua missão através dos Seus próprios meios! Isso também quer dizer que Ele não depende de nós pra cumprir a Sua missão! Isso quer dizer, ainda, que devemos dar graças ao Pai pelo enorme privilégio que Ele nos deu de sermos participantes disso!
Mas, enfim, ainda cremos na "missão da minha igreja", na "missão da minha organização", na "missão da minha denominação". E colocamos isso fora e até acima do Reino de Deus, por exemplo. Queremos muito mais um reino nosso, da nossa denominação, do que propriamente o Reino que dizemos proclamar.
Vamos pensar isso de maneira mais prática..., se hoje se levantar certo crente, compromissado com Deus, que estuda e medita na Palavra dia e noite, que trabalha e dá bons frutos onde está, dizendo que ouviu Deus o chamar pra ser missionário de carreira, como respondemos? Com questões coerentes sobre o onde, como, porque, certo? Digamos então que sua resposta seja: quero trabalhar com artes na Itália. "Ah tá..., tá bom!"
Agora vem outro, crente, que ora em línguas, dá o dízimo, anda de bíblia debaixo do braço é é super simpático com todos os velhinhos e crianças da igreja, além de chamar respeitosamente o pastor da igreja de reverendo (com isso quero formar aquela imagem de crente "externamente perfeito"). Esse crente, apesar de cantar no louvor, não participa de nenhum projeto social, de nenhuma viagem missionária, de nenhum impacto, a não ser que vá cantar e ministrar lá no palco, porque, diz ele, que esse é seu dom. Seus frutos não são aparentes, não tem nenhum discípulo, ao contrário, tem vários desafetos no grupo de louvor que faz parte, porque acham ele meio "estrela demais". Porém, seu "testemunho" perante os que não o conhecem mais intimamente (não fazem parte do grupo de louvor) é muito bom. Ele fala lá suas besteiras teológicas de vez em quando lá no púlpito, mas vá lá, tá aprendendo. Agora, como num passe de mágica, ele também se diz chamado para missões..., e o melhor, vai pra África, trabalhar com as criancinhas "remelentas" das fotos que ele colocou no seu powerpoint!!
Qual dos dois tem maior probabilidade de levantar parcerias e compreensão para seu chamado?
Infelizmente temos que ver o "despreparado-mas-irrepreensível-gospel" ir para o campo, causar mais estrago do que gerar frutos que permanecem, e ver o rapazinho compromissado com Deus ficar penando pra talvez fazer um trabalho de curto prazo com o que foi chamado a fazer.
Com isso não quero dizer que a África não precisa de missionários, que as crianças famintas não precisam de pessoas trabalhando com elas, de maneira alguma. Conheço pessoas sérias, compromissadas com Deus, com trabalhos extremamente relevantes nesses contextos. Mas até eles não escolheram esse "campo" por conta da visibilidade que terão ao trabalhar nesses contextos..., sequer escolheram esses contextos, mas oraram, ouviram o chamado específico de Deus e simplesmente tem obedecido.
Tem agência fechando as portas pra quem não foi chamado pra ir pra campos como por exemplo da antiga Janela 10-40. Será que Deus está errando ao chamar pessoas pra outras localidades então?? "Poxa Deus, sacanagem, você tá querendo estragar missões, atrasar nossa vida? Você não entendeu ainda que o foco é a Janela 10-40 Deus?"
Com pensamento e atitudes como essas, temos mais afastado as pessoas de pensar em missões do que aproximado-as de algo que é essencial a vida cristã. Infelizmente!
Conheço muitas pessoas que não foram chamadas pra serem missionárias em países financeiramente pobres, pessoas que talvez nunca pisarão nos países da Janela 10-40 pra fazer missões, mas que através de seu ministério, sua dedicação, seu trabalho árduo, sua obediência a Deus, tem gerado frutos bons e que permanecem, incluindo alguns frutos que acabam por entender seu chamado pra essas localidades e geram muitos outros frutos ali. Talvez, muitos desses missionários que hoje trabalham no continente africano, ou com os pobres e famintos mundo afora, ou nos países fechados, no meio dos muçulmanos, entre os índios, nas favelas e prisões, etc., não estariam aí, dando muito fruto, se não fosse algum missionário (des)obediente que os discipulou, treinou, encorajou, ensinou e despertou pra esses trabalhos, e que nunca pisou ou pisará nesses países!
Devemos compreender que até mesmo Paulo, aquele que chamamos de pai das missões estrangeiras (apesar de que nosso Deus, através do tempo tem sido o verdadeiro Pai das missões estrangeiras desde a eternidade) não olhava para missões dessa nossa maneira de hoje. Em seu ministério ele foi muito mais
estratégico ao ir e trabalhar em cidades com características cosmopolitas, ricas ou proeminentes, cidades a partir de onde poderia fazer com que o ministério frutificasse muito mais, do que simplesmente ir pra alguém pobre ou diferente socialmente dele mesmo...
Devemos compreender que as fronteiras geográficas e sociais que devemos ultrapassar na proclamação do evangelho são onde há fé e onde não há fé. Sendo assim, num tempo globalizado, em que podemos ir daqui para o Japão em um segundo (através da internet) ou em algumas horas (de avião), onde as fronteiras geográficas são facilmente ultrapassadas, onde podemos encontrar um pobre morando do nosso lado direito, e um rico morando como vizinho esquerdo, devemos fazer a pergunta correta ao se pensar em missões: onde Deus ainda não é Rei? É aí que vou investir! E se, por acaso, Deus te trouxer algum chamado específico, se você estiver pensando em ser ou adotar um missionário, avalie o desafio de trabalho e ministério através dessa pergunta, e não daquilo que está sendo "moda" cristã hoje em dia ou daquilo que minhas experiências (ou da minha denominação/hagência/doutrina) colocam como expectativa missionária.
Porque se seu vizinho crente está indo pra África levar comida para as criancinhas famintas(porque ouviu e quer obedecer o chamado do Pai) mas você ouviu de Deus que é pra ir para o Havaí discipular outros crentes a compreender os desafios das fronteiras onde não há fé, vocês não são concorrentes, mas co-participantes do avanço do evangelho e da implantação do Reino de Deus nessa terra!

Como o mundo te vê?

By : Kadu
Parte 1



Parte 2

Milhares de pessoas rodando todos os dias. Você já parou e tentou imaginar qual é a imagem que elas tem de você? Qual sua influência como Cristão no mundo? Será mesmo que as coisas lá fora estão tão boas como nos cultos que você frequenta todo final de semana?
Documentário feito por
Tire suas conclusões e, se quiser comente aqui pra conversarmos sobre o assunto...

Mudando o mundo - Uma fralda de cada vez

By : Kadu

Aí não importa o que o ser humano escolha fazer com sua vida algumas pessoas tem esse desejo, de ser relevante no que faz, ter voz e trazer alguma transformação boa para esse mundo.

É óbvio que existem visões diferentes em como isso pode ser feito e alguns são bem mais radicais do que outros em suas escolhas mas no final dá no mesmo. Todo mundo deseja que o "mundo" veja o "mundo" através de seus olhos.

Como comentei em posts anteriores, o nosso desejo como família é fazer com que as pessoas tenham um relacionamento com Deus trazendo dignidade para os seres humanos que de alguma forma foram roubados do direito de se sentirem dignos na sociedade aonde vivem.

Acabamos de voltar de uma viagem ao redor do mundo aonde tivemos o privilégio de conhecer muitas pessoas e influenciar a vida de algumas delas. Confesso que quando cheguei em casa fiquei um pouco deprê pensando: "- Poxa, agora vou ficar em casa cuidando da Isabella, enquanto o Ricardo está lá fora 'ajudando a mudar o mundo!'"

Mas aí lembrei que, alguns meses atrás logo que a Isabella nasceu tive uma crise parecida, e processando a respeito tive algumas revelações e hoje decidi compartilhar por aqui.

Trabalho em um Instituto de Cinema, aonde antes de ter a Isabella, ajudei a treinar centenas de alunos de todas as partes do mundo com mídia e fotografia para que eles fossem lá fora 'dignificar' a humanidade e dar voz aos sem voz com suas fotos e vídeos. Tivemos vários resultados positivos como uma mudança de lei no Panamá relacionada adoção assim também como muitos desafios. Com essas e outras histórias vindas de várias partes do planeta a sensação que se tem é que você realmente está fazendo uma diferença nessa terra nem que seja minúscula, mas que é parte de algo.

Agora que fico mais em casa do que lá fora, as vezes bate a crise em mim e em muitas outras mães amigas minhas que se sentem da mesma maneira, de que você está perdendo algo. É como se em nossa geração fossemos treinadas de uma maneira tão individualista e egoísta que, aquilo que antes era orgulho no tempo de nossas avós e tataravós, virou vergonha e nos passa a sensação de que fomos diminuídas em nossas vida por causa da maternidade.

A minha experiência não é muito diferente daquelas mamães que sofrem entre as palavras "carreira" e "maternidade" como se uma competisse com a outra.

Quem disse?? Aonde está escrito que uma tem que competir com a outra?

Porque se pararmos pra pensar, usando meu exemplo, fotografia é apenas o meu trabalho mas isso não define quem eu sou como pessoa. É o que amo fazer e a ferramenta que uso no momento para dar luz e voz. Ser mãe está dentro de mim gravado em todas as células do meu corpo mesmo antes de dar a luz a minha primeira filha. Mesmo se perdesse meus filhos um dia, JAMAIS deixarei de ser mãe,

uma vez mãe sempre mãe.

Isso mostra a importância desse papel na vida das mulheres e o fato da sociedade ocidental ter diminuído tanto ao ponto de trazer culpa ao coração daquelas que nasceram para serem mães. Seja de sangue ou de coração, não tem experiência no mundo que revele o amor MAIOR pra nós do que a maternidade. Filhos não são um peso, filhos são investimento, eles que irão definir o futuro das cidades, dos países, do mundo.

Um dia dirigindo o carro voltando de um projeto fotográfico me senti meio confusa em relação ao meu papel agora com um bebê de dois meses no colo e uma máquina no pescoço. Senti uma voz compartilhando comigo assim: "Nádia, todos esses projetos por mais que influenciem o mundo e venham impactar a humanidade, um dia eles estarão em prateleiras ou guardados em caixas e ninguém vai lembrar mais deles, eles são momentâneos, em 10 anos tudo isso que você se encontra envolvida hoje será diferente, mas em 10 anos seus filhos estarão lá, sendo preparados para amar e influenciar a próxima geração...

Nádia, SEUS FILHOS SÃO AS FLECHAS MAIS AFIADAS QUE VOCÊ POSSUI PARA MUDAR O MUNDO, INVESTE NELES E VOCÊ NÃO VAI SE ARREPENDER..."

Tive um choque dentro do carro e comecei a pensar que tudo nessa vida passa, mas que as coisas mais preciosas que possuo hoje são os bons ensinamentos que recebi dos meus pais e as memórias que me construíram para ser quem sou hoje. É óbvio que a vida é um aprendizado sempre, estou longe da perfeição mas caminhando para ser uma pessoas melhor. É isso que desejo para os meus filhos, que eles entrem nessa jornada para descobrirem e serem TUDO o que foram criados para ser. Que eles guardem princípios bons e priorizem o que é mais valioso nessa vida: Deus, o amor e o próximo. De que eles saibam que tudo o que é material que a gente sonha em ter todo dia, vai passar, mas as memórias ficam.

Quero aprender a lançar meus filhos pro alvo daquilo que o Criador tem sonhado pra eles. E que isso seja parte da pequena porção que possa mudar o mundo. Eu não tenho controle sobre as escolhas que eles irão fazer no futuro mas eu posso lançar sementes no coração deles para que sejam inclinados a fazer escolhas boas na vida.

Sim, eu sonho com projetos fotográficos muito loucos, sonho em viajar o mundo e documentar as histórias de mulheres, orfãos e refugiados. Sonho em entrar em lugares para trazer imagens que o mundo não vê no dia a dia, sonho em documentar o dia a dia dos lugares aonde o mundo não crê haver esperança. Sonho alto e sonho louco, mas sei que nunca deixei de mudar o mundo e ser uma partícula relevante nessa história que envolve bilhões, o que mudou é a maneira como estou fazendo isso nessa fase da vida.

Mudando o mundo.... uma fralda de cada vez ; )

Texto escrito por Nadia Otake, é mãe (antes de tudo!), missionária de Jocum no Havaí, fotógrafa, casada com Ricardo Otake e mãe da pequena (e linda) Isabella. São amigos muito queridos e que fizeram e continuam fazendo muita diferença pra muitas pessoas mundo afora! A família Otake escreve em seu blog pessoal sobre seu dia a dia e suas aventuras, e você pode acessar clicando aqui!

Série: Reflexões Teológicas - A Igreja, o Reino e o Mundo

By : Kadu

Nessa atividade da faculdade de teologia foi proposto que eu fizesse uma relação entre três perspectivas:

1. A Igreja é o Reino de Deus no mundo
Essa perspectiva diz que Igreja e Reino de Deus têm “o mesmo tamanho”, ou seja, não existe nenhuma ação, dimensão ou realidade do Reino de Deus que aconteça fora dos limites da Igreja.
2. Igreja e Reino não se misturam com o mundo
Essa perspectiva isola a Igreja e o Reino de Deus desse mundo presente. Entende-se, dessa maneira, que o Reino é uma realidade única e exclusivamente futura, celestial, e que não tem implicações muito concretas para a realidade do povo. Também se entende que a Igreja é chamada não para se inserir nesse mundo, mas para viver alheia a ele.
3. A Igreja é sinal do Reino de Deus no mundo
Essa perspectiva afirma que a Igreja, em si mesma, não é o Reino de Deus, mas é uma agente deste: incompleta, ainda cheia de sinais do pecado, ainda precisando redescobrir em si mesma o caminho do próprio Reino.

Segue abaixo o texto que elaborei:

Primeiro, respondendo à perspectiva de que a Igreja é o Reino de Deus no mundo, já coloco como não concordante. Embora, por muito tempo, tenha aceitado essa visão e agido em função dela, através da minha vivência ministerial e últimos estudos acerca do tema, tenho percebido o quão falha é essa visão e o quanto ela afeta negativamente as ações de quem nela acredita.
A Igreja reflete em ações e palavras aspectos relacionados ao Reino de Deus, que governa o mundo todo e age no mundo todo, não só na realidade eclesiástica. Desde que a igreja seja uma espécie de funcionalidade do Reino de Deus, não posso permitir pensar que ela É o Reino de Deus.
Assim como as instituições políticas, representadas por exemplo pelos poderes legislativo, executivo e judiciário representem e reflitam aspectos políticos e existam pra isso, não posso limitar política às ações dessas instituições.
Assim também não posso dizer da igreja. Mesmo da comunidade que não vive pela instituição, mas pra servir as pessoas por amor e obediência à Deus, não posso chamar de Reino de Deus, mas de expressão prática desse Reino.
A igreja é comissionada pelo seu cabeça, que é Cristo, pra mostrar realidades no tempo presente daquilo que escatologicamente está se cumprindo, inaugurado na morte e ressurreição de Cristo. É apenas um aspecto desse reino, que existe pra redenção da totalidade das coisas.
Qualquer ação, motivada e inspirada pelo Espírito Santo, em obediência à Deus, em direção à redenção de todas as coisas e pra fazer convergir todas elas em Cristo Jesus, é ação do Reino de Deus.
Suas falhas limitam nossas ações fora do âmbito eclesiástico, como no campo social, ambiental e político, por exemplo. A visão dominante é “salvar almas” e levá-las pra dentro do “aprisco”, longe do “mundo”. Assim acabamos por nos tornar como guetos alienantes, longe do propósito de anúncio do Reino e crendo que ali, na comunidade denominada igreja, tudo é perfeito, como se o Reino de Deus estivesse ali por completo, pleno.
Talvez seja esse ponto que insira em nossa mentalidade a segunda perspectiva, de que Igreja e Reino não se misturam com o mundo. Ora, desde que o mundo todo é alvo do amor de Deus, pra que TODAS as coisas sejam redimidas e restauradas em Cristo Jesus, quando da plena instalação da Reino entre nós, como podemos viver alienados, distantes desse mundo? Afinal, de que mundo somos?
É mais uma visão presente em nosso meio que impossibilita o crescimento da igreja qualitativamente, ampliando também a atuação e demonstração de como as coisas realmente deveriam ser, exemplificando o Reino perfeito de Deus. Apesar de Jesus ter dito que seu Reino não é deste mundo, nunca foi sua intenção se abster do mundo, como que fazendo com que essas palavras quisessem dizer respeito à realidade última do Reino de Deus. Ele não é proveniente deste mundo, da cosmovisão que reina neste mundo, inclusive desta, que limita o Reino de Deus à igreja e que diz que esta deve se abster e se distanciar do mundo.
Como demonstrar pra uma sociedade alienada, distante de Deus, sofrendo as mazelas das estruturas dominantes, que o Reino de Deus é melhor se não nos relacionamos profeticamente com o mundo ao nosso redor? Como ser efetivo na evangelização sem estar presente nesse mundo? Como não demonstrar abertamente as obras resultantes de ser crer em Cristo, nesse mundo, pra que vejam que o Reino de Deus é a melhor proposta de vida?
Desde que o mundo é alvo do amor e redenção, é nele, nesse tempo, nessa história, que devemos, como igreja, atuar de maneira prática e profética, em obediência ao chamado e à missio dei.
Sim, devemos nos abster de sermos dominados pela cosmovisão atuante e que predomina no “mundo que jaz no maligno”, não sendo influenciados e vivendo debaixo do jugo das estruturas dominantes, mas não há como influenciar de maneira “contra-cultural” efetivamente estando distantes do “mundo”.
Também não teremos respostas efetivas e práticas, que demonstrem corretamente quem é Deus e o que Ele pretende com Seu Reino, ao colocar a realidade desse Reino somente para um futuro distante, numa escatologia equivocada. Repito: é nesse tempo, nessa história, nesse mundo, que o Reino de Deus se faz presente, embora não ainda plenamente, e, por isso, é nesse tempo, nessa história, nesse mundo, que a Igreja deve atuar como agente, demonstrando as implicações concretas e atuais para cada problema desse presente século.
E assim, temos como resultado a visão que creio ser a correta, da perspectiva que a Igreja é sinal do Reino de Deus no mundo, como agente do Reino, mas imperfeita. A Igreja existe pra mostrar em palavras e ações, neste mundo, neste tempo, nesta história, a realidade de um Reino que “já está, mas não ainda”. Demonstrando a beleza de sua realidade presente, mas que só será completa na consumação de todas as coisas, em Cristo Jesus.
A evangelização, a intenção de mostrar a salvação em Cristo Jesus, as missões, as obras sociais, todas devem estar conectadas com a realidade do Reino de Deus, presente em seu agente denominado igreja (comunidade dos que entendem e aceitam a morte e ressurreição pra redenção de todas as coisas por intermédio de Jesus Cristo) de modo ainda incompleto, imperfeito, mas plenamente capacitado pelo Espírito Santo de Deus, a ser esse agente, esse embaixador desse Reino.
Creio então na realidade desse Reino de Deus, inaugurado desde a morte e ressurreição de Cristo, de maneira que ele está, mas não ainda, sendo demonstrado pela relação que e Igreja de Cristo tem consigo mesma e com o mundo ao seu redor em todas as esferas e estruturas sociais, políticas, ambientais, etc... Creio também que o Reino é de Deus, não da Igreja, e que essa é apenas, e privilegiadamente, participante deste Reino. Que a missão é de Deus, não da Igreja. Que a Igreja é mais do que instituição, é um organismo vivo, e que vivemos não para esta, mas como sendo esta, pra realizar as obras que Deus preparou de antemão pra que as realizássemos, em direção ao testemunhar da beleza do Seu Reino.
Essa declaração me faz mais humilde e me coloca na perspectiva correta de quem eu sou, e pra quem eu sou, como Igreja de Cristo, como mundo e como parte do Reino de Deus.

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